quarta-feira, 25 de maio de 2011

McFly - São Paulo - 24/05/2011

Ir a um show da sua banda favorita, independente do tipo de música que eles tocam, é uma emoção única e particular. Tudo começa com a ansiedade e a espera. Seu coração está a mil e ainda faltam aqueles minutos antecedentes ao show, que são muito (eu disse MUITO) piores do que os longos dias que você esperou entre a compra do ingresso e o dia do evento em si. Você já está agoniada e ainda tem a banda de abertura. Os caras podem até ser bons, mas não são quem você quer ver. Você torce pra acabar logo. Quanto mais você quer que o tempo passe, mais ele demora. De repente a espera acaba e a banda que você sonhou a vida inteira em ver ao vivo, está ali, no palco, bem na sua frente. Você tenta gritar, mas não consegue nem respirar, quem dirá fazer suas cordas vocais funcionarem. Você tenta pular, mas a estupefação te empurra pra baixo. Você tenta sorrir, mas chora. Você tenta chorar, mas ri. Você ri e chora, pula e grita. Não controla mais seus sentimentos, nem mesmo suas ações. A primeira música começa. Você quer cantar, mas não consegue, porque bom mesmo é só ouvi-los. Olhar para cada um deles e perceber que eles são reais, e que são bons mesmo, do jeito que você viu nso vídeos. Da vontade de mandar todas as pessoas do público calarem a boca, só pra ouvir a voz do seu vocalista favorito. Sim, porque a voz dele é linda mesmo, daquele jeito. Não é só na gravação. Você se deixa levar pelas pessoas em volta, e é empurrada de um lado para o outro no ritmo da música. De repente a banda brinca e conversa com o público. Você ri ainda sem acreditar que os está vendo ali. A vontade de rir, gritar e pular toma conta de você. Nas próximas músicas você se descabela. Grita o nome deles, o nome da banda, o nome da música que você quer que eles toquem, grita por gritar, grita o que quiser. O importante é por pra fora toda aquela emoção. E é emocionante pensar que sua voz faz parte daquela multidão que quase põe o pulmão pra fora, só pra cantar bem alto as músicas mais lindas da melhor banda do mundo. Aí você cansa, fica sem ar, e faz uma pausa, só escutando a música, cantarolando na cabeça, ou só fazendo movimento com os lábios. Você sabe que seu coração está a mil, mas não consegue senti-lo, porque agora seu peito bate no ritmo do bumbo da bateria. É tudo que você consegue sentir. Eles são tudo que você queria ouvir. You're falling in love. Você tenta olhar para todos ao mesmo tempo, mas é impossível. Você tenta focar seus olhos no seu favorito, mas é impossível. Você deseja ter mil olhos. Ou pelo menos um par para cada membro da banda. Mais piadas e mais brincadeiras com o público. Toalhas, garrafas, palhetas e baquetas são lançadas à multidão, mas você está looonge. Tudo que você queria era estar lá na frente. Alcançá-los. Abraçá-los. Você promete a você mesma que se pudesse fazer isso, não os agarraria com força, ou os seguraria pelo cabelo, nem mesmo faria um escândalo. Você faria tudo com calma, com jeito, porque só quer mesmo uma oportunidade de chegar perto e dizer o quanto tem orgulho deles. O show está acabando. Passa rápido, bem que te avisaram. Você deseja que eles toquem por mais umas duas horas, mas sabe bem que não aguentaria, porque por mais que não tenha percebido, você curtiu, aproveitou, gritou e pulou tudo que conseguiu, tudo que seu corpo deixou, e suas costas e suas pernas doem muito, muito mesmo. Mas se você pudesse sentar bem pertinho do palco, os assistiria tocar infinitamente. Eles tocam mais uma e se despedem. O público pede Bis e eles voltam. Começa a penúltima música, sua favorita, aquela que você esperou a vida inteira pra ver ao vivo. Você pensa em cantar, mas assim fica mais difícil ouvi-los. Você fixa seus olhos no palco, e mais uma vez se deixa levar pela batida, pelas guitarras, e pelo movimento do público. Seus olhos se enchem de lágrimas. Pra que segurar? É emocionante mesmo. É tudo que você sempre quis. Você pisca rápido, forçando as lágrimas a sairem, para não atrapalharem sua visão. Afinal, eles são tão lindos. É a música mais linda do mundo. Ela acaba tão rápido. Você queria poder pedir bis. Começa a última música. Você nem conhece, mas não tem problema, porque assim pode adimirá-los mais um pouco. Suas bochechas estão doendo de tanto que você já sorriu. A música acaba. Eles se despedem mais uma vez. O público começa a gritar por uma música que já estavam pedindo desde a metade do show. A banda volta e faz um segundo Bis, e sim, tocam a música que a multidão pediu, uma música que não esteve em nenhuma outra setlist e muito menos estava naquela. "Just for you", diz o vocalista. "Just 'cause this is our last show here in São Paulo". É uma das suas músicas favoritas, mas não a melhor de todas, e ainda assim você chora mais do que naquela que era realmente a que você mais queria ouvir. Porque o carinho da sua banda favorita te emociona, e o fato de eles voltarem só pra atender um pedido de todas as pessoas na platéia, te faz gostar mais e mais e mais deles, e desejar que aquele momento congele, e não acabe nunca mais. Mas ele acaba. Os integrantes da banda saem do palco e você continua olhando para la, para o vazio, para onde eles estiveram há poucos minutos. Um vazio toma conta de você, e você deseja que eles voltem mesmo logo, porque não vê a hora de tê-los por perto de novo.

à melhor banda do mundo: McFly (L)

If you don't believe me, than just look into my eyes, because the heart never lies. ;)

PS.: Quero acrescentar que a banda Cine (que abriu o show do Mcfly do dia 24 de Maio) pode ter as piores músicas do mundo, mas duas coisas eu tenho que reconhecer: eles sabem animar um público e, sendo ruins ou não, estão onde eu sempre sonhei estar: em um palco, tocando pra MUITA gente.

PS2.: O último álbum do McFly é sim muito diferente dos outros, e eu até confesso que não gostei muito e estava com medo de ir ao show. Mas não me arrependo nem por um segundo, porque os meninos são os mesmos, e a essência da banda é a mesma. O show simplesmente me fez querer ouvir o CD com mais atenção e passar a gostar mais ainda deles.

sábado, 29 de maio de 2010

Poesia Pra Você!

Impressão minha ou o tempo agora passa mais devagar?
Estou tão afogada na imaginação que cada toque do telefone é um pulo.
Estou tão ansiosa, que cada minuto parece uma hora.
Estou tão, tão, tão... Tão apaixonada!
É... Às vezes o que procuramos está onde menos esperamos. Ou onde esperamos a vida toda.
E a julgar pelo tempo que ainda vem, esses anos parecem ter passado tão rápido!
Diferente do relógio, cujo tic-tac parece simplesmente não existir mais.

Heloyse Fernanda Brocco Silva
27/05/2010

sábado, 22 de maio de 2010

Dor (conto)

A água quente do chuveiro queimava meu couro-cabeludo, meu rosto e todo o resto, mas eu não sentia nada. "Adeus". Dizem que "adeus" é quando um coração se despede levando parte de outro com ele. É, eu também acho que é. Porque depois de toda uma conversa que envolvia paredes, caminhos, pilhas e fins do túnel, a parte que mais doeu foi o verdadeiro "adeus".
Ele se fora. Havia eu deixado? Não, eu o expulsara mesmo. Mas já expulsei tantos outros, por que este dói assim? Fechei meus olhos. Dois segundos depois meu celular tocou. "E se, depois que essa parede que nos separa acabar, você não me enxergar do outro lado?" "Eu vou enxergar", eu disse. "Abre a porta e me enxerga agora então". "Ahn?" - perguntei. "É. A porta da sala".
Sem largar o celular, me enrolei no roupão, corri para a porta e a abri. Do outro lado, ELE me esperava, com uma rosa nas mãos e braços abertos. "Volta pra mim?" - perguntou. Quando eu ia responder que sim, a água do chuveiro ficou fria. Tudo que havia queimado, congelou, e eu abri meus olhos para as quatro paredes do box que me cercavam. Tudo o que eu queria era que alguém lhe dissesse "É ela que você ama? É ela que você quer? Então vá atrás!"
Abri a porta do box e gritei para que minha irmã fechasse a torneira de água quente.

Heloyse Fernanda Brocco Silva
19/05/2010

sexta-feira, 2 de abril de 2010

O Dono do Bar (conto)

Sentado na varanda da casa de meu irmão, na qual eu morava de favor há alguns meses, eu lia o jornal, como toda manhã. Foi quando eu vi um anúncio que dizia “Você se acha um excelente vendedor ou tem todas as características de um? Venha para a nossa empresa! Vendemos utensílios de primeira necessidade.” Depois dava o endereço. Ficava numa cidadezinha próxima, a mais ou menos trinta quilômetros de onde eu estava e a seleção de vendedores começava no dia seguinte. Acontece que eu não tinha dois reais e cinquenta centavos para ir de ônibus à cidadezinha, mas eu tinha que dar um jeito de estar lá, pois vender era tudo que eu sabia fazer.
Quando acordei no outro dia, ainda estava escuro, era cinco horas da manhã. Tomei um banho quente, esfreguei bem os olhos, vesti a única roupa decente que me restava e desci para a cozinha. Não havia nada para comer e eu não tinha dinheiro para comprar, então segui em frente. Quando pisei para fora da casa, respirei muito fundo e comecei minha longa caminhada até a cidade do anúncio. No meio do caminho eu cansei, mas não me atrevi a parar, nem por um segundo. A calça jeans começava a colar nas minhas pernas, meus pés ferviam dentro dos tênis velhos, mas não mais que a minha cabeça careca que eu havia esquecido de cobrir com um boné. Era mais ou menos onze e meia da manhã quando eu adentrei a pequena cidade. A primeira coisa que vi foi um enorme chafariz, no qual tive vontade de me jogar. Molhei o rosto, bebi daquela água suja mesmo e sentei ali por dois minutinhos. Olhei em volta e vi um posto de gasolina. Fui até lá e, tirando do bolso um pedaço de jornal amassado no qual continha o anúncio das vendas, perguntei a um dos frentistas onde ficava aquele endereço. Ele me deu as direções e eu segui, mais cansado do que nunca. Quando encontrei o lugar, as portas estavam fechadas, mas a placa colada na frente dizia que abriria de novo uma e meia da tarde. Então eu sentei na maior sombra que encontrei, que não era muito grande pois o sol estava a pino, e esperei. Quando a empresa abriu, eu era o primeiro da fila e estava faceiro. Entrei e a primeira etapa era uma entrevista com uma psicóloga. Enquanto ela me fazia perguntas e eu respondia, notei um enorme galão de água no canto de sua sala.
- Desculpe, a senhora me da uma licencinha? Queria beber um gole d'água.
- Sim, claro, fique à vontade.
Bebi um copo, dois copos, três copos... Acho que uns dez copos de água depois, eu pude me recompor. A moça não disse nada, apenas me observava. Sentei de novo na cadeira à sua frente e ela recomeçou as perguntas. Uns dez minutos depois eu a interrompi de novo:
- Ahn, desculpe de novo, moça. Não estou fazendo pouco caso do seu trabalho nem nada, respeito muito o que você faz, mas me diz uma coisa: o que é que tem pra vender? O anúncio dizia 'utensílios de primeira necessidade'.
- É perfumaria.
Meus olhos se arregalaram e o sangue me subiu em dois segundos. Eu levantei empurrando a cadeira para trás, dei um soco na mesa e gritei:
- O QUE? Perfumaria? E desde quando perfumaria é utensílio de primeira necessidade?
- Para as mulheres, é.
- MAS TANTA COISA É PRIMEIRA NECESSIDADE PARA MULHER! Isso aqui é uma fraude!
- Meu senhor, se acalme. Peço desculpas, mas eu sou paga para isso e só estou aqui fazendo o meu trabalho. Se te consola, eu também acho que o anúncio é uma fraude. Mas entenda, não fui eu que o coloquei no jornal.
Eu olhei para ela enraivecido e disse:
- A minha cidade fica a trinta quilômetros daqui e eu vim a pé. Mas tudo bem, a senhora não tem culpa. Me desculpe.
Virei as costas e sai, com vontade de derrubar tudo que via no meu caminho.
O estabelecimento tinha duas saídas e eu saí por uma porta diferente da que entrei. Quando me dei conta que estava indo pelo caminho errado, resolvi voltar e me perdi. Parei por um segundo para olhar em volta e vi um bar bem sujo, bem pequeno e sem uma viva alma la dentro além do dono. Eu precisava beber água e foi ali mesmo que entrei.
- Boa tarde – eu disse. - O senhor poderia me dar um copo d'água?
O homem atrás do balcão me olhou de cara assustada, veio em minha direção e disse:
- Meu Deus, sente, por favor, sente! O senhor está todo vermelho, vai morrer aqui! Sente!
Eu olhei para ele e resolvi me sentar, estava mesmo cansado. Ele virou as costas por dois segundos e voltou com uma garrafa de água mineral super gelada nas mãos. Abriu e me entregou.
- Tome, senhor.
- Não, não, obrigada. Agradeço, mas não posso pagar por uma água mineral. Só queria mesmo um copo d'água da torneira.
- Eu insisto, tome. É por conta da casa.
Eu não estava em condições de negar, aceitei a água e bebi ela toda em menos de um minuto. O dono do bar sentou ali comigo e eu lhe contei tudo o que havia acontecido. Ele estava espantado. Olhou para mim e disse:
- Eu já sei. O senhor gosta de uma cervejinha bem gelada, não?
Eu fiz que sim com a cabeça e ele trouxe uma garrafa e dois copos. No primeiro gole eu fiquei bêbado e tonto, e não era pra menos já que não comia nada há horas e horas. Aquele senhor levantou, foi atrás do balcão e pegou o último pedaço de salame que ele tinha, cortou em pedaços, colocou dentro de um pão fresquinho e trouxe para que eu comesse. Começou então a me contar da sua vida. Disse que havia ficado preso por dois anos e meio, acusado de matar a mulher, mas que o soltaram quando descobriram o verdadeiro assassino. Porém, nem a família dele nem a dela acreditavam mais nele, achavam que ele tinha armado para incriminarem o outro rapaz, e ele teve que sair de sua cidade, uma vez que todos o acusavam por lá. Contou então que viera para aquela cidadezinha em que estavam e que ele havia vivido das vendas do bar por muito tempo, mas que não estava mais dando certo e aquele era seu último dia ali, pois logo o proprietário viria para lhe tomar o lugar, já que não pagava o aluguel há meses.
Enquanto conversávamos, bebíamos. Acredito que contamos quase toda a nossa vida um para o outro e bebemos umas cinco ou seis garrafas de cerveja. Já era quase oito horas da noite quando eu me dei conta que ainda tinha que voltar para a minha cidade.
- Seu Olavo, a conversa está muito boa e eu agradeço por tudo, mas eu tenho que ir porque a caminhada é longa e eu não sei a que horas vou chegar. - eu disse, com a língua enrolada, de bêbado que estava. O dono do bar levantou, abriu a gaveta do balcão, pegou o último vale transporte que lhe restava, veio até mim e me entregou.
- O senhor sai por aqui, segue reto nesta quadra, vira à direita, à esquerda e três quadras para frente fica a rodoviária. Pegue um ônibus para casa. Se o senhor for a pé vai morrer atropelado, nem acostamento a estrada tem.
- Muito obrigada, Olavo. Foi um prazer conhecer o senhor. Boa sorte na vida!
- Obrigada você por ter aparecido por aqui. Há tempos eu não tinha uma conversa tão boa.
Então ele me abraçou, depois me segurou pelos ombros, olhou nos meus olhos e disse:
- Boa sorte, e vai com Deus.
Eu sorri e saí daquele bar com direção à rodoviária. Não havia conseguido um emprego, nem dinheiro, nem nada do que eu tinha ido buscar. E provavelmente eu jamais veria aquele tal de 'seu Olavo' novamente. Mas eu havia conseguido perceber que a vida não é difícil só pra mim e que ainda existem pessoas boas, capazes de estender o braço quando tudo que se pede é uma mão.


02/04/2010
Baseado em fatos.

sábado, 12 de dezembro de 2009

Melhores Amigos (Conto)

Ele olhava no fundo dos meus olhos e eu encarava os dele também. Aquele azul da cor do mar, tão brilhoso que parecia de mentira e um olhar tão intenso que parecia que eu ia me afogar. Ele apertava os lábios, formando com eles apenas uma linha, enquanto suas sobrancelhas contraiam levemente. Sentados um de frente para o outro em cima da cama, suas mãos seguravam as minhas no meio entre as minhas pernas cruzadas e as dele. Quando ele mexeu o nariz, eu não pude evitar rir.
- Ah Tiago, você sempre faz isso! Como é que eu não vou rir?
- Mas Fer, a idéia da brincadeira é que eu te faça dar risada antes que eu ria! Não tenho culpa se você não se agüenta! – disse ele, rindo da minha cara.
- Eu vou desistir de brincar de sério com você. Faz uns 10 anos que a gente brinca disso e eu sempre perco! – eu disse, rindo com ele por não me agüentar.
- É, mas antigamente você ficava brava comigo, lembra? Dizia que você que tinha que ganhar e que se eu não deixasse você não ia falar mais comigo. Aí eu ganhava de novo e você saia toda emburrada, me xingando e dizendo “Não fala mais comigo!”
- E eu ficava sem falar com você. – eu disse, séria, erguendo as sobrancelhas.
- Claro. Por dois minutos. Depois você corria pedir pra brincar de novo e eu dizia que só se você pagasse uma nova taxa. – zombou ele.
- A taxa era um abraço. Você cobrava barato, hein? Vindo de você, um explorador, tinha que ser mais que isso. – disse eu, irônica.
- Por quê? Você queria mais que isso?
Eu fiquei vermelha na hora. Abaixei o rosto e não respondi. Quando olhei para cima ele também estava sem graça. Ele continuou, como se nada tivesse acontecido:
- Você é minha melhor amiga, Fer, sempre foi. Acha que eu exploraria você?
- Aaaah, eu acho! – respondi rindo – você nunca me deixa ganhar a brincadeira, isso é exploração, eu sou menor de idade!
- Ah sim, menor de idade por alguns meses!
- Não importa, você já tem dezoito anos, eu não. Posso te denunciar!
- Denunciar pelo que? – ele perguntou sorrindo. Aquele sorriso de vitória que eu tanto gostava.
- Por abuso, é claro! – eu disse, me sentindo idiota.
- Abuso, é? Abuso você vai ver! – disse ele, vindo para cima de mim.
Com um braço ele prendeu os meus dois e com o outro começou a fazer cócegas na minha barriga. Eu rolava de um lado para o outro tentando fazê-lo parar, mas não adiantava, ele era muito mais forte que eu. Eu odiava cócegas, não havia tortura pior para mim, mas vindo dele, fazia com que eu me divertisse. E mesmo que eu estivesse odiando, não ia dar o braço a torcer e pedir pra ele parar. Eu tentava mordê-lo, jogar meu cabelo na sua cara, dar joelhadas, chutes, mas cada vez que eu o acertava, ele se jogava ainda mais para cima de mim, até que eu me rendi. Deitei na cama e deixei que ele fizesse cócegas, tentando me manter a mais concentrada e séria possível. Até que ele desistiu.
Ele parou de me prender e fazer cócegas e apenas ficou me olhando. Eu deitada de barriga para cima, ele com um joelho de cada lado das minhas pernas, antes me prendendo, e suas mãos uma de cada lado dos meus ombros. Ele me olhou fundo e dessa vez era ainda mais intenso. Seus olhos brilhavam mais ainda, se é que isso era possível. Seus lábios não faziam apenas uma linha como durante a brincadeira e sim estavam levemente entreabertos, cada vez mais próximos dos meus. Tiago olhava dos meus olhos para a minha boca e cada vez que voltava aos meus olhos, era um novo arrepio. Agora sim eu tinha certeza que ia me afogar naquele azul da cor do mar. Ele chegava mais e mais perto, minha respiração falhava, eu estava ofegante. Quando seus olhos estavam tão perto dos meus que já não dava mais para olharmos sem ficarmos vesgos, nossos olhos se fecharam, nossos lábios se tocaram e uma de suas mãos veio parar na minha nuca. Ao contrário do que seria normal, minha primeira reação não foi continuar o beijo e sim sorrir. Foi o que ele fez também e nossos sorrisos se completavam, os narizes roçavam, eu sentia e ouvia sua respiração tão perto... E como se tivéssemos combinado, porque para os dois já não dava mais para esperar, nossos lábios se fecharam em um beijo carinhoso, de leve. Sem parar de me beijar, Tiago me ergueu e me colocou sentada, com as costas apoiadas na parede e com a mão que não estava na minha nuca, segurou uma das minhas bem forte, entrelaçando seus dedos com os meus. A mão que estava na nuca foi parar na cintura, então eu coloquei a minha livre em seu pescoço e o puxei para mais perto. Ali nós ficamos pelo que pareceu a eternidade, mas na realidade foram apenas alguns minutos.
Então o olhar tomou conta da gente de novo, dessa vez acompanhado de sorrisos enormes de ambos os lados. Parecia que não dizer nada era o certo a se fazer, mas eu precisava dizer, precisava colocar para fora tudo aquilo que estava engasgado há uns sete anos. Mas antes que eu dissesse qualquer coisa, ele pegou minhas duas mãos e as colocou de novo junto das dele no meio entre nossas pernas cruzadas em cima da cama e disse:
- Pensei que esse dia nunca fosse chegar.
- Eu também.
- Por que você nunca me disse nada? – ele perguntou.
- Porque você nunca disse nada. Eu tinha medo de revelar meus sentimentos e não ser correspondida.
- Pff... Se você visse o tanto de cartas que eu escrevi me declarando e nunca tive coragem de entregar. Uma delas, inclusive...
Ele levantou e abriu a gaveta do criado-mudo ao lado da sua cama e tirou de lá uma folha de caderno que estava bem no fundo, mas sem nenhum amassado, totalmente bem-cuidada. Eu estendi a mão para pegá-la, mas ao invés de me entregar, ele me pediu para fechar os olhos e não abrir por nada. Eu obedeci. Ouvi algumas batidas, barulhos esquisitos... Silêncio... E de repente com um violão, ele tocava uma melodia suave, bonita. Eu abri meus olhos e ele começou a cantar. Eu não conhecia a música, mas a letra era tão linda. Sua voz parecia de algodão, acompanhando os acordes suaves da melodia. Meus olhos encheram de lágrimas e eu sorria igual boba. Quando acabou, ele colocou o violão em pé ao lado da cama e guardou a folha de volta com todo o cuidado do mundo dentro da gaveta. Olhou para mim e com os olhos também cheios de lágrimas, disse:
- Fiz para você, há alguns anos. Toco ela todos os dias desde que terminei de compor, sempre pensando em você, no quanto você é especial para mim.
Quando vi, as lágrimas que antes eu estava segurando, já rolavam pelo meu rosto aos montes e eu gaguejava para falar:
- Vo...Vo...Você f-fez uma músi-sica pra mi-mim?
- Fiz. – respondeu ele sorrindo e limpando minhas lágrimas. – Eu queria tê-la mostrado antes, mas eu não tinha certeza dos seus sentimentos...
- De-desculpa. – pedi, ainda gaguejando.
- Ora, não me peça desculpas. Assim eu tive tempo para aprimorá-la e além do mais, você sabe que eu penso que as coisas acontecem da maneira que têm que acontecer. Mas eu estou imensamente feliz que esse dia tenha chegado.
- Ah amor, eu também estou tão feliz! Finalmente!
- Amor? – ele perguntou, meio sorrindo, meio tímido.
- Desculpa, foi a emoção do momento. – eu respondi, também tímida. - Não chamo assim se você achar que é cedo.
- Você e sua mania de pedir desculpas. Não precisa, meu amor. Afinal, você é sim o meu amor.
- E você é o meu. – disse eu, sorrindo.
Mais uma vez aqueles olhos intensos encontraram os meus e me olharam tão fundo que eu cheguei a apertar suas mãos mais fortemente. Eu abri a boca uma vez e fechei. Abri de novo, tornei a fechá-la. Abri pela terceira vez e coloquei para fora:
- Eu te amo. – ele falou junto comigo. E ele sorriu o meu sorriso de vitória, aquele que eu tanto gostava. Aliás, que eu amava e não podia dizer e eu sorri também.
Meu coração batia forte, minha respiração falhava e a sua junto da minha. Então nossos lábios se encontraram de novo e da noite fez-se eternidade, mesmo que não para sempre. Mesmo que por apenas alguns minutos.


“And I didn't mean to meet you then
we were just kids
And I didn't mean to give you chills
the way that I kiss
And I didn't mean to fall in love, but I did
And you didn't mean to love me back but I know you did”
(Plain White T’s – Lonely September)